Gran Torino

Mecânico reformado, veterano da Guerra da Coreia e viúvo, Walt Kowalski (Eastwood) espera simplesmente que a vida passe. Os seus vizinhos mudaram-se ou morreram e foram substituídos por imigrantes Hmong, que ele despreza, e por gangues de jovens afro-americanos e latinos. A certa altura, alguém tenta roubar o seu estimado Gran Torino, o carro que ele ajudou a construir na linha de montagem. Ao fazer frente aos ladrões, Walt Kowalski acaba por se tornar um herói, ainda que não intencionalmente, mudando as vidas dos seus vizinhos, de um rapaz forçado a enveredar por uma vida de crime pelos gangues locais e até a sua própria vida.

Crítica: É já difícil, se não mesmo impossível, não considerar Clint Eastwood como um dos melhores realizadores em actividade. Apesar da sua idade, ainda consegue surpreender-nos, seja com os seus filmes, seja com a sua maneira de ver e fazer cinema. Nisso e não só Eastwood é um génio. Gran Torino premeia pela sua simplicidade e eficácia em toda a sua extensão.

Eastwood interpreta um homem que se reveste aliás como sendo uma convergência de personagens e histórias que protagonizou ao longo da sua filmografia, como se de um apanhado da sua carreira se tratasse, sendo possível reconhecer algumas, entre elas: Harry Callahan (da saga “Dirty Harry”), Bill Muny (do inesquecível “Imperdoável”), Sergeant Thomas Highway (do poderoso “Sargento de Ferro”) e Frankie Dunn (do dramático “Million Dollar Baby”). É portanto um personagem duro que não deixa de ser humano e justo, sem papas na língua, que distribui com frequência palavrões e ofensas racistas. Um homem com um passado que o marca profundamente e que torna claro a sua razão de ser.

Da mesma forma questiona-se sobre a postura social e política do seu país que, pelo menos aparentemente, se encontra tão perdida quanto o olhar do jovem que dá origem a todo o desenvolvimento da narrativa. É um filme denso, violento, introspectivo e com uma vertente muito humana da problemática em questão. Por isso contar mais seria revelar em demasia e com isso retirar-vos o prazer de visionar este objecto cinematográfico que encerra interpretações seguras e bem caracterizadas, mesmo as dos estreantes (ainda que umas melhores que outras é certo) que acabam por trazer uma grande densidade dramática ao filme.

Tecnicamente o filme é aquilo a que o realizador já nos habituou. É incrível o rigor e existe bastante cuidado na composição das cenas, que acaba por resultar em planos extremamente bem conseguidos. Lembro-me por exemplo daquele plano em que Walt Kowalski contempla o seu carro ao final do dia. A fotografia é delicada, e remete-nos para os bons velhos tempos do cinema clássico. Nessa altura tudo era feito com mais calma, tudo era feito com tempo para existir e respirar.

A edição é feita de forma bastante eficaz e consegue prender o espectador desde o inicio, e a música adequa-se na perfeição ao ritmo e densidade do filme. Isto é ainda mais notório – e notável – no segmento final do filme.

Em resumo, Gran Torino é o cinema no seu estado mais puro. Um filme terno, realista, divertido e carregado de uma grande componente humana, com a morte e a respectiva redenção, sempre a pairar – tão típica nos filmes do realizador em questão. Trata-se de um filme que reafirmou Eastwood como um dos melhores realizadores de sempre e dessa feita um dos que não se deve de maneira nenhuma perder.

Título Original: “Gran Torino” (2008)
Realização: Clint Eastwood
Argumento: Nick Schenk, Dave Johannson
Actores: Clint Eastwood, Bee Vang, Christopher Carley
Género: Drama, Crime
Avaliação: 8 out of 10 stars (8 / 10)

André Ramalho

Sou um apaixonado por filmes e cinema, e por isso resolvi criar este blog, com o intuito de partilhar as minhas opiniões e críticas sobre filmes.

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